A história de Nahyra Schwanke: a mulher caminhoneira mais antiga do Brasil

As estradas brasileiras se despediram recentemente de um de seus maiores símbolos. No último domingo, dia 22 de fevereiro, faleceu aos 96 anos Nahyra Schwanke, reconhecida como a caminhoneira mais antiga do Brasil. Mais do que uma profissional experiente, Dona Nahyra representava uma geração inteira de trabalhadores que fizeram do transporte rodoviário um verdadeiro projeto de vida.

Natural de Sobradinho, no Rio Grande do Sul, ela acumulou mais de 70 anos de boleia. Sua história atravessa décadas de transformações nas rodovias, na tecnologia dos caminhões e, principalmente, na presença feminina no setor. Em um tempo em que quase não se via mulheres no transporte de cargas, ela não apenas ocupou esse espaço — ajudou a construí-lo.

Da infância no interior ao primeiro caminhão

O contato com o trabalho pesado começou cedo. Ainda criança, aos 12 anos, Nahyra já conduzia tratores na colheita de grãos na propriedade da família, em Arroio Bonito, interior de Sobradinho. Filha única de um comerciante, precisou amadurecer rapidamente quando o pai foi acometido pelo mal de Parkinson e perdeu as condições de seguir trabalhando.

Foi ela quem assumiu as responsabilidades da casa e passou a manobrar o caminhão da família. O que começou como necessidade transformou-se em vocação. Pouco tempo depois, já estava encarando as rodovias e aprendendo, na prática, os desafios da profissão.

Em 1958, aos 27 anos, adquiriu seu primeiro veículo próprio: um Ford S600 amarelo. A partir desse momento, iniciou oficialmente uma trajetória que a levaria a percorrer praticamente todo o Brasil, transportando principalmente trigo, arroz e cevada. Com o trabalho nas estradas, garantiu o sustento da casa e pagou os estudos da filha, mostrando que a boleia também podia ser sinônimo de independência e realização.

Fé, resistência e um legado nas rodovias

Ao longo da carreira, Dona Nahyra dirigia entre 12 e 15 horas por dia, chegando a rodar de 8 a 10 mil quilômetros por mês. Enfrentou estradas de chão, longas madrugadas, calor intenso e frio rigoroso — sempre com determinação e responsabilidade. Segundo relatos, nunca se envolveu em acidentes, marca que reforça não apenas habilidade, mas respeito pela vida e compromisso com a profissão.

Na década de 1970, em um gesto de fé, colocou uma imagem de Nossa Senhora às margens da ERS-422, em Vila Deodoro, pedindo proteção para suas viagens. A iniciativa deu origem à Gruta Nossa Senhora de Lourdes, que permanece até hoje como ponto de devoção e memória. A espiritualidade sempre caminhou ao lado da estrada em sua trajetória.

O último companheiro de viagens foi um Mercedes Axor 2536. Já aposentada, passou a viver com a filha em Não-Me-Toque (RS), mas continuou sendo referência entre caminhoneiros e caminhoneiras de todo o país. Em postos de combustível, encontros de estrada e conversas pelo rádio, seu nome tornou-se sinônimo de perseverança.

A partida de Dona Nahyra encerra um capítulo marcante das rodovias brasileiras. Seu legado, porém, permanece vivo em cada mulher que assume o volante de um caminhão e segue viagem com coragem, competência e orgulho da própria história.

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